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Carlo Sansolo
www.laisle.com
Notas sobre a curadoria e exibição do Primeiro Festival
de Novas Mídias do Rio de Janeiro.
* Talvez fosse esperado, neste texto, uma demonstração
sobre a teoria geral da arte eletrônica, mas acredito que um texto
que examine a história, um corte sincrônico e geográfico,
seja importante no momento. Fatos podem ser mais esclarecedores sobre
questões importantes com que estamos nos deparando. Questões
relativas à recepção e leitura do trabalho de arte,
de como as pessoas entendem o que é arte, de como está a
produção de arte eletrônica no Rio de Janeiro, no
Brasil e no mundo, em 2005; um recorte específico no tempo e no
espaço.
* Escolhi escrever em parágrafos independentes e descontínuos,
que se conectam entre si, de maneira que possa inserir diferentes tópicos,
devido à vastidão de assuntos que desejo abordar - creio
que este seja o formato mais adequado. Vamos adiante.
* “Decisões e decisões curatoriais”
Seguindo a nossa linha de trabalho, elaboramos as mostras de vídeo
e de net arte, bem como as instalações, tentando representar
diferentes aspectos formais, de cada gênero, e também tentando
representar diferentes pontos geográficos, embora a produção
esteja se tornando cada vez mais homogênea, devido ao efeito da
globalização.
Chegamos à decisão de tentar mostrar um grande panorama
dessa produção nômade, apresentá-la ao Rio
de Janeiro, como uma chance para pesquisa. O que é que se tem produzido
em vídeo, net art, cd-rom interativo? Instalações
interativas? Algum outro formato? Videogame arte?
Reunimos um grande número de trabalhos, tanto de artistas experientes
como de estudantes e jovens artistas dos mais variados pontos do globo.
A mostra de vídeo, por exemplo, para ser assistida em sua totalidade,
necessita de oito dias de visitas constantes, já que são
20 sessões de artistas selecionados; nove curadorias internacionais,
divididas em 11 sessões; e cinco especiais, com artistas divididos
em seis sessões, perfazendo 37 sessões de vídeo arte.
Uma grande oportunidade para artistas e pesquisadores terem acesso não
a monstros sagrados ou dinossauros, mas a uma intensa produção
contemporânea.
* “Cabos e fios”
Uma vitória importante na montagem foi - para mim, pelo menos -
deixar fios e cabos aparecerem. Existe a expectativa de que exposições
de arte, em termos gerais, sejam mágicas, e essa magia se estende
à montagem. Os cabos, fios, aparelhos diversos, são escondidos,
é como se tudo aparecesse do nada, como se tudo fosse uma obra
divina. A imagem da perfeição e harmonia que a sociedade
almeja ter de si mesma, de que este é o mundo mais perfeito dos
mundos possíveis, ou seja, sem contradições. Os fios,
cabos e a imagem dos computadores nos remetem à realidade; e a
idéia de história, toda a produção artística
e cultural se apóia em aparelhos, e estes não são
produzidos do nada, mas sim como parte de um desenvolvimento técnico
que existe dentro da história e não fora dela.
O trabalho de Leonardo Galvão, em geral, atende a alguns desses
pontos, ele é extremamente perturbador e trabalha com vídeos
baixados da Internet. Leonardo combina imagens de robôs e de tecnologia
bizarra com filmes pornográficos, renomeando os arquivos com poesia
e teoria de arte, como em plastic modern love e arte cinética.
Sua forma de realizar o trabalho é igualmente notável, organizando
os filmes na tela do computador e filmando a tela; o vídeo se torna
quase um registro de uma performance no computador.
* Vídeo arte e net arte não estão na hype. Vídeo
arte e o corpo.
A vídeo arte já tem quase 40 anos, já tem a sua história,
já existe como linguagem, tem diversos gêneros e já
conta com muitas teses, estudos, festivais mundiais e intelectuais dedicados
ao seu estudo. No entanto, no Rio de Janeiro, essa linguagem é
pouco divulgada e/ou compreendida. Embora contando com artistas do porte
de Anna Bella Geiger, Letícia Parente e Sonia Andrade, além
de um número crescente de artistas emergentes, ainda faltam mostras
dedicadas ao gênero e produção intelectual, para se
apresentar esse tipo de trabalho a um público mais amplo, como
tem sido feito com o curta-metragem. Antes do prog:ME, Carlo Sansolo e
Érika Fraenkel estavam extremamente envolvidos neste processo (ver:
http://www.laisle.com/eventosport.html)
colocando, lado a lado, a produção nacional e internacional.
A discussão sobre o que é a vídeo arte hoje merece
não um ensaio, mas uma tese com diversos volumes - deixo essa missão
para gente competentíssima como Arlindo Machado e Christine Mello,
mas antes vou fazer alguns comentários sobre o gênero.
A vídeo arte começou de forma seminal, como interferências
no aparelho de TV, usando este como escultura e interferências na
imagem da TV como o fez Nam June Paik. No começo dos anos 70, câmeras
de vídeo começaram a ser vendidas a um preço mais
acessível; logo, artistas começaram a usá-las para
substituir as câmeras super 8 e 16 mm, a fim de registrar performances
e happenings. Logo, artistas elaboraram performances específicas
para o vídeo.
Rosalind Krauss, em seu famoso texto vídeo “The aesthetics
of narcisism”, afirma que a vídeo arte tem uma forte relação
com a body art e com o corpo como elemento significante. Por isso, considera
a vídeo arte como uma arte narcisista por excelência, onde
o corpo significante é um objeto privilegiado (e fetichista), o
instrumento do artista que expressa uma gama complexa de significados.
Os vídeos que nos chegam hoje não comprovam esta tese. Cerca
de 15% a 20% deles tomam o corpo como elemento importante, existe um crescente
interesse na capacidade da câmera e no uso do software de edição,
animação e computação gráfica. O incrível
aumento na produção se pode atribuir à queda de preços
das câmeras digitais e dos PCs.
A produção de vídeo arte tem se focado em dois pontos
distintos: vídeos que são, preferencialmente, exibidos em
looping ou em instalações, em um espaço de galeria;
e vídeos que devem, preferencialmente, ser projetados em salas
de vídeo ou cinema, e que dialogam mais claramente com a linguagem
do cinema.
Em nossa seleção, existem trabalhos que privilegiam aspectos
técnicos e abstratos com uso intenso de computação
gráfica; outros, que trabalham na fronteira com o documentário
e a ficção, mas se diferenciam destes pela forma não
linear e pelo fato de que não estão documentando precisamente
nada. Vídeos com propósitos políticos e ativistas,
que têm uma narrativa elíptica e hiperconcentrada em elementos
simbólicos; vídeos que dialogam com questões políticas,
de forma direta, mas ainda assim, conceitual. As variações
são muitas, existe um diálogo muito grande entre procedimentos
do cinema, referências à arte contemporânea, ao desenvolvimento
de software - como já disse - e com a mass mídia, que produz
um conteúdo aparentemente hegemônico. A vídeo arte,
para mim, entra nesse espaço do vídeo em que falta um nome
melhor para definir, pois os trabalhos facilmente definíveis já
recaem sobre clichês muito fortes, sobre o que se entende por vídeo
arte, e se estabelece então uma fórmula para ser aceito
no critério e na definição deste gênero.
É interessante observar que, ao conversar com os colegas que praticam
o gênero, uma das influências que quase todos nós temos
vem de J. L. Goddard, que apesar de trabalhar também com
vídeo, é um cineasta. Glauber Rocha, certamente,
é uma das influências também citadas por artistas
brasileiros do vídeo.
*É quase lugar-comum dizer que o boom da net arte já passou,
parece que todos concordam com isso, mas a Internet continua sendo um
“meio” em constante expansão, e com as “ferramentas”
à disposição, seja com flash action scripts, Java
script, Java, html, vrml, xml e tantas linguagens que aparecem e se acumulam
à disposição do trabalho da web. Trabalho este que,
de forma interessante, tem muito a ver com collage, ready mades, copy
and paste, já que muitos códigos estão visíveis
e há tantos outros códigos prontos, na web, para serem deslocados
e reutilizados. Quantas outras linguagens aparecerão? A web não
se expande em velocidade, capacidade e facilidade de acesso? Acredito
que esse tipo de trabalho ainda está no seu começo, assim
como trabalhos de arte que vão usar a capacidade telemática
como parte do seu conceito. A questão da interatividade e colaboração
são outras características que vão se tornar ainda
mais importantes para a arte e para a nossa vida. Vou falar brevemente
sobre alguns projetos que selecionamos para o prog:ME e que ilustram um
pouco esse tipo de trabalho.
Em Gwei, por exemplo, trabalho de Hans Bernhard e
Alessandro Ludovico, por exemplo, já é bem auto-explicativo
e sugere algumas táticas de ação (leia a sinopse):
“Nós geramos dinheiro disponibilizando anúncios
do Google em nosso site da web < www.gwei.org
>. Com este dinheiro, nós automaticamente compramos ações
da Google através de depósito bancário eletrônico
na Suíça. A Google se ‘auto-compra’ através
de anúncios! A Google se auto-engole, mas nós ‘a’
possuímos! Se nós tivermos sucesso estabelecendo este modelo,
podemos tanto desconstruir novas formas de mecanismos de propaganda globais,
obviamente surrealistas, ou simplesmente entregarmos a propriedade comum
da Google à comunidade.” Não preciso comentar
muita coisa sobre este.
Já Carlos Katastrofsky, com o trabalho “Busca
de vizinhança”, assume uma diferente estratégia. Todo
computador, na Internet, tem um "endereço de IP", isto
é, o equivalente a um endereço no mundo real físico.
Porém, no mundo real, o vizinho de um chefe de Estado, por exemplo,
não será um anarquista. No ciberespaço, isto é
possível. Esta máquina o deixa descobrir algo sobre “ciberbairros”.
De uma forma muito simples, CK faz uma radiografia dessa estrutura invisível
e rizomática, que é o espaço da Internet, ou seja,
traz à aparência algo que parece mágico.
A artista portuguesa Susana Mendes Silva propôs
o artphone, cuja idéia é bem simples: ela nos fornece o
seu endereço para podermos falar (via microfone e headphone do
computador) sobre arte contemporânea, usando o computador como um
telefone. Falei várias vezes com Suzana, nunca sobre arte, sempre
sobre questões técnicas e, invariavelmente, apresentando
um ou outro artista que aparecia quando conversava com ela. Na verdade,
falar com uma pessoa desconhecida ao telefone te traz um tal grau de intimidade,
que eu agia sempre com terror sobre tal conversa; aliás, constantemente
senti uma certa compulsão a confessar coisas a essa voz desconhecida.
A primeira lembrança é o texto história da sexualidade,
de M. Foucault, sobre essa tara pela confissão em momentos íntimos.
Ela dizia: “Não tenha medo, pergunte o que gostaria de saber
sobre arte contemporânea.” - e tudo o que mais sentia era
o medo. A simples presença de uma voz que fala sobre arte contemporânea
tem a capacidade de inspirar situações perturbadoras ou
ótimas para o que entra em contato. Podemos pensar que é
uma reflexão sobre a intimidade, na Internet. O trabalho não
é só a proposição, mas o resultado desse papo
que nunca pode ser completamente previsível.
Já o trabalho de xo00, milleplateaux, é um CD-Room interativo,
em que o teclado se torna um gerador de tipos de formas e sons que interagem
com os movimentos do mouse, formando desenhos abstratos na tela e ritmo
sonoro, ao pressionarmos os botões do mouse. É um trabalho
de arte generativa, que usa elementos visuais e a interação
para se realizar. Existem muitos projetos que
continuam trabalhando com a parte sensível e visual, de forma interessante,
e este é mais um deles.
* “A recepção dos trabalhos”
Eu já, há alguns meses, venho pensando que arte contemporânea
e arte eletrônica são duas coisas diferentes, com alguns
pontos em comum. Uma das confirmações disto foi na palestra
de Trebor Scholz, quando ele afirmou que o público de uma exposição
de new media é completamente diferente do público de arte
contemporânea.
E este expectador de arte contemporânea já existe no Rio
de Janeiro; não existe ainda um expectador de novas mídias,
estamos criando esse expectador.
- O público leigo -
A audiência que visitava a exposição, diariamente,
o público sem face, a massa silenciosa. Como avaliar esta audiência?
E esta pareceu não só interessado, mas principalmente entretido.
Por dias e dias pude ver crianças e adultos brincando nos trabalhos
de videogame arte de Robert Praxmarer, olhando os vídeos nos lcds
e mexendo nos botõezinhos; ou, no final da tarde, todos os computadores
com a tela rosa, no site da Barbie, de Juliet Davies, que tem uma leitura
bastante crítica sobre a boneca americana e seu estilo consumista.
O público estava fascinado com os computadores e com a Internet,
não necessariamente com a net arte. Somos levados a pensar sobre
a questão da inclusão digital e os benefícios que
esta pode trazer, assim como o aprendizado desses códigos que o
uso do computador e a Internet requerem.
O que a net arte e a web arte tendem a problematizar é justamente
a natureza da Internet, que tenta se apresentar como um paraíso
de conhecimento e, principalmente, de consumo, de gratificação
imediata, assim como o rastreamento de dados e vigilância.
* Onde está a interatividade?
Um dos exemplos de como a arte eletrônica pode ser vista, de uma
forma superficial, aconteceu na nossa primeira entrevista, no segundo
dia de exposição. A primeira pergunta que nos fizeram foi:
“Onde está a interatividade?” - e eu expliquei que
havia algumas instalações interativas, vários sites
interativos e que a instalação, ali do lado, teria uma parte
interativa a ser implementada. O rosto do homem foi da euforia à
decepção total. Será que o fato de um trabalho de
arte ter interatividade, ou não, vai se tornar um critério
para avaliar se ele é bem-sucedido ou não?
Os mesmos problemas vêm sendo enfrentados pela arte contemporânea
há anos e, mesmo assim, a estranheza continua. Formar um público
interessado nessas questões é importante, mas nossa sociedade
convive também com outras prioridades, de ordem social e econômica.
A pergunta deve ser: qual o papel que a arte deve desempenhar nesta sociedade?
Nós apresentamos a nossa interpretação de como pode
ser. Ela está ainda aberta à pesquisa de todos, no site
< www.progme.org >, onde textos e trabalhos de net art e web art
estão disponíveis na Internet.
* Por que tantos artistas?
Essa pergunta foi feita mais de uma vez, por alguns artistas. A resposta
é simples: porque no momento estamos reagindo contra essa tendência
de se pensar que só alguns eleitos fazem vídeos interessantes
e relevantes; a cena, na verdade, é imensa, e esta mostra - que
também foi imensa - tenta representar e informar isso. A quem beneficia
esta atitude de se pensar que apenas alguns eleitos fazem bons vídeos?
Na verdade, a quantidade de trabalhos interessantes causa uma instabilidade
interessante ao meio, e queremos trabalhar com essa instabilidade. O trabalho
é muito maior, mas quem disse que em arte alguma coisa tem de ser
fácil?
* Mas isto é realmente arte?
Realmente, eu não sei, e isso não é minha maior preocupação,
no momento. Hoje, quando não sabemos exatamente o que significa
uma coisa, nós a chamamos de “ARTE” - essa gama de
interdisciplinaridades e objetivos diferentes, que possuem pontos de diferença
e pontos de semelhança, que se englobam carnivoramente, que usam
tanto procedimentos sofisticadíssimos tecnologicamente, quanto
materiais mais primitivos, como o nosso próprio corpo.
Todos esses elementos são parte de um processo, de um trabalho
quase silencioso e que se acelera. Tudo o que aparece hoje é rapidamente
assimilado já no dia seguinte; soluções ontem marginais,
hoje são estabelecidas. É bom participar deste processo
e dos possíveis desdobramentos que ele pode vir a trazer.
Nascido no Rio de Janeiro em 1969
Estudou literatura, Puc-RJ de 1990 a 1992, e Crítica de Cinema
na Birbek College em Londres de 1998 a 1999.
É video artista e compõe musica eletrônica, organiza
eventos com Érika Fraenkel desde 2002.
Algumas das principais exposições de Carlo Sansolo:
*Videobrasil 2003 e 2005 *Sergio Motta -2004-projeto Gugg und Chaim SP
*Itáu cultural - 2005 -08-session portifolio-bh-sp-poa * Projéteis-
Funarte 2005 RJ - Vídeo instalação * Microwave-Hong
Kong- China- 2003-10 *Split Film Festival- Split Croacia - video arte
- 2004-07 * Video as Urban Condition-06 2004 -Londres embaixada austríaca-
curador manu kuksh *404- Festival Rosário - Argentina-12-2004 *
*Curadoria e exibição -videoformes - França- 2005
–03 *Remo-mostra de videos em Osaka Japão agosto -2005 -
Video Center Tokyo.
Qualquer duvida sobre o evento enviar um email para info@progme.org
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